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Colonização

 A mais gentil, meiga e formosa flor das montanhas do Brasil


Nova Friburgo tem história ímpar, diversa das demais cidades do Brasil.
História que se perde nas brumas de um passado remoto e flui no reino da lenda e das fantasias. Não há nada semelhante na historiografia brasileira e, por isso mesmo, Nova Friburgo tornou-se algo de absolutamente singular. Nem poderia ser diferente!

Quem volver o olhar para a "Carta Geográfica da Capitania do Rio de Janeiro", elaborada em meados dos anos setecentos, por determinação do conde da Cunha, capitão-mor e vice-rei do "Estado do Brasil", certamente há de atentar no largo espaço vazio nela existente. A extensa área devoluta é limitada, ao Poente, pela "Estrada Nova Mineira", aberta no crepúsculo dos anos seiscentos, por Garcia Rodrigues Paes, filho do "bandeirante das esmeraldas"; ao Nascente, pelo horizonte imenso das infinitas planícies dos "Campos dos Goytacazes"; ao Sul, pela alcantilada e nevoenta "Serra dos Orgãons" e, ao Norte pelo alentado rio "Parahyba do Sul", onde tinha começo a "Capitania das Minas Gerais". No meio daquele desmedido espaço, sem indicação de quaisquer acidentes geográficos, estava escrito, de forma misteriosa, tão somente: "Sertão Ocupado Porvarias Nações dos Indios Brabos". Aquela região, que foi interdita pela Coroa, por tempos dilatados, à penetração do homem branco, e que somente era alcançada com permissão oficial, abrigou, no último quartel dos anos setecentos, a figura lendária, romântica e misteriosa do contrabandista de ouro e pedras raras, "Mão de Luva" que, diziam e afiançavam com discrição, fora um nobre português, objeto dos amores da princesa real, aquela que, depois, foi Da. Maria Iª, a toda poderosa rainha de Portugal. Pois foi ali, em meio àquela vasta extensão, quando já recebera o nome de "Minas Novas do Sertão do Macacu", que nasceu, anos depois, por ordem e vontade expressa de D. João VI, o Clemente, Rei Fidelíssimo de Portugal, Brasil e Algarves, a vila de Nova Friburgo, semente de uma nova e grande nação que ele pretendia criar, e dela fazer, em definitivo, a sede da dinastia de Bragança.

Os preâmbulos da História de Nova Friburgo, por incríveis que possam parecer, remontam às conseqüências da Revolução Francesa e das Guerras Napoleônicas. Findos aqueles conflitos que empaparam de sangue, ódio e terror o Velho Continente, por quase um quarto de século, a Europa continental achava-se exaurida de quaisquer recursos e imersa na última e mais negra das misérias. Os que mais sofreram foram os habitantes dos países menores e, portanto, os mais fracos e desprotegidos, como acontecia com a Suíça, sobretudo nos cantões de língua francesa. Milhares de seus homens, que haviam servido na guerra como soldados mercenários, nos vários exércitos beligerantes, perderam a ocupação, pois não eram mais necessários e que, portanto, não tinham mais soldos a receber. Desvalidos, voltaram aos seus pagos, onde a gente simplória, a maioria da população, durante o inverno, quando a neve cobria com seu alvo manto os campos agrícolas, dedicavam-se à indústria artesanal, sobretudo à tecelagem fina. Foi quando adveio a chamada "Era Industrial", nascida na Inglaterra, a grande vitoriosa nas guerras havidas na Europa. O vapor, agora domado, passou a substituir o braço humano. Grandes máquinas passaram a produzir com maior profusão. Seus produtos não eram tão primorosos quanto os artesanais, mas eram muito mais baratos. O suíço pobre voltou-se então, e tão somente, para as atividades agrícolas.

A chegada da primavera do ano 1816 foi alvissareira. Os campos foram amanhados com carinho e as glebas agrícolas foram semeadas com esmero. As sementes germinaram em profusão. Tudo indicava que haveria uma colheita farta. No final da estação, no entanto, chuvas copiosas e indesejáveis passaram a prejudicar as lavouras. Tudo feneceu e não houve produção alguma. Houve, sim, miséria e fome! Foi a pior quadro vivido em todos os tempos pelo povo mais pobre da pequenina e desvalida Suíça.
Alguns, os mais ousados, emigraram. Muitos dirigiram-se à Rússia, à Espanha e, a maioria, aos Estados Unidos. Vários conseguiram alcançar êxito na fuga. Outros, nem tanto, ficaram vagando, miseráveis e famintos, nos portos da Europa. Muitos foram assaltados durante a fuga e não poucos desapareceram para sempre.

Houve alguém, dentro daquele quadro terrivelmente adverso, que conjecturou com lógica: se a melhor solução para o povo desvalido era a emigração, por que não fazê-la de forma ordeira e sob a tutela dos governos interessados? Esse alguém chamava-se Sébastien-Nicolas Gachet. A vida de Gachet foi, por si só, uma fantástica aventura que não cabe nos limites destes escritos. Pode-se citar apenas que ele era de Gruyères, cantão de Fribourg; que nasceu pobre e que era deformado fisicamente. Progrediu e tornou-se secretário e tesoureiro no rei de Nápoles, cunhado de Napoleão Bonaparte e que, de certa feita, quando viajava por mar, rumo à Turquia, foi feito prisioneiro por piratas levantinos e levado para Argel como escravo. Libertado, de volta à Suíça, convenceu as autoridades da República de Fribourg a preparar uma emigração de suíços necessitados para um país onde eles fossem bem recebidos e tivessem a possibilidade de uma existência próspera e digna. Devidamente autorizado, Gachet embarcou para o Rio de Janeiro e, na qualidade de diplomata helvético, contratou com D. João VI a vinda de 100 famílias suíças para o Brasil, onde fundariam a vila de Nova Friburgo e onde, certamente, teriam uma vida regalada, uma vez que o rei pretendia ali lançar a semente de uma nova nação, na qual estabeleceria a sede definitiva da dinastia de Bragança, longe, bem longe, da sempre conturbada Europa.

A viagem dos "colonos" suíços para o Brasil constituiu-se, sem qualquer sombra de dúvida, num dos acontecimentos mais épicos e fantásticos da História do Brasil. As "Condições" firmadas pelo rei, para a vinda dos suíços definiam, de forma categórica, que eles deveriam estar constituídos em 100 famílias oriundas de cantões latinos e compostas por católicos romanos, por ser o Catolicismo a religião oficial do Reino. Ficou estipulado, ainda, que todo o dispêndio feito durante a viagem correria por conta do erário Real.

Em julho de 1819 partiram da Suíça não apenas 100 famílias bem definidas, mas 2006 pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e condições. Vieram católicos e protestantes, gente séria e maus elementos, famílias inteiras e gente escoteira, pessoas livres e pessoas que se achavam encarceradas cumprindo pena, doutores e analfabetos, gente abonada e gente paupérrima, suíços de tradição e "apátridas" indesejáveis, gente de fala francesa e gente de fala alemã, enfim, uma autêntica miscelânea. Os "organizadores" do evento, verdadeiros ladravazes, sonegaram aos colonos a cláusula das "Condições" que rezava ser o rei do Brasil o responsável por todas as despesas de viagem, e exigiram dos mesmos o pagamento do transporte e da alimentação ao longo do rio Reno. Assim, de forma safada, embolsariam o dinheiro desviado. Quanto mais gente embarcasse, fosse quem fosse, melhor seria...

A viagem fluvial prolongou-se por 26 dias de penúria e incríveis sofrimentos. No porto de Dordrecht, na Holanda, onde deveriam ficar por apenas "alguns dias", até embarcarem nos veleiros que os trariam ao Brasil, os colonos foram obrigados a acampar nos brejos de Mijl, onde tiveram de aguardar de quarenta a mais de cinqüenta dias. Durante a jornada ao longo do Reino e na demorada estada na Holanda, morreram 52 colonos, sobretudo vítimas da varíola e, possivelmente, do tifo e da malária!

Na Holanda, depois de serem roubados por descuidistas e vadios locais, os colonos suíços foram embarcados, em datas diferentes, em oito veleiros que os trouxeram ao Brasil. O mais rápido fez a viagem em 55 dias, e o que mais demorou somente chegou 146 dias depois da partida, tendo ficado perdido no mar por cerca de sessenta dias! Na travessia oceânica morreram, ao todo, nada menos de 311 colonos! No navio "Urânia", o mais desditoso, no qual embarcaram 437 colonos, 109 tiveram o oceano por túmulo. Num só dia, sete corpos foram lançados ao mar! Há de se ressaltar o caso em que tripulantes daquele veleiro, durante a viagem, pescaram um alentado tubarão. Ao eviscerarem o monstro, saltou de suas entranhas o corpo estraçalhado de um bebezinho de quatro meses que fora sepultado no mar, na véspera!

Ao chegarem, em levas sucessivas, à baía do Rio de Janeiro, os colonos grimparam, a pé, a grande Serra dos Órgãos. Na Baixada, no convento então existente em Sto. Antônio de Sá, o governo fez instalar um hospital de emergência para tratamento dos que estivessem doentes. Ali vieram a falecer mais 35 colonos! Chegados à vila de Nova Friburgo, nos seis primeiros meses pereceram outros 131, tudo em virtude de males adquiridos na Europa e durante a viagem. Logo depois, no entanto, a benignidade do clima local fez cessar de pronto os óbitos. Ao todo, naquele interregno, ocorreram nada menos de 520 mortes. A quarta parte dos colonos! Foi quanto custou, em vidas, a fundação de Nova Friburgo. Mas, temos de convir, nada de tão grandioso se consegue realizar sem sacrifício!
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Não foram apenas os colonos suíços e portugueses, bem como os escravos negros, que participaram da criação de Nova Friburgo. Ao nascer do Brasil como nação livre, D. Pedro I sentiu a necessidade de criar um Exército Brasileiro, livre de militares portugueses. Assim, remeteu à Europa, em sigilo, um preposto seu para contratar soldados mercenários. O enviado, na qualidade de embaixador, era possuidor de uma gleba de terras no Sul da Bahia e, para valer-se da oportunidade, resolveu contratar, também, um grupo de colonos para cultivá-la.

Os soldados mercenários e os colonos foram escolhidos na Alemanha. Depois de uma viagem demorada e repleta de peripécias e aventuras a bordo, quando foram, inclusive, apresados por um navio pirata, ao largo das ilhas Canárias, os alemães chegaram ao Rio de Janeiro. Ali, os soldados mercenários foram integrados no "Batalhão de Estrangeiros"; já os colonos agrícolas foram internados na "Armação da Praia Grande", futura Niterói, por não haver ninguém que por eles se interessasse... Sem ter outro destino a dar aos colonos alemães, D. Pedro I tangeu-os serra acima para integrá-los aos suíços de Nova Friburgo, onde chegaram no dia 3 de maio de 1824, acolitados pelo pastor luterano Friedrich Oswald Sauerbronn, que os havia acompanhado desde a Europa.

Quando do alistamento de colonos, na Suíça, haviam-lhes sido prometidas terras de excepcional fertilidade, coisa que não ocorreu, elas eram da pior qualidade. O que mais desejavam os imigrantes eram terrenos propícios à cultura do café, o que não acontecia com as glebas, inda que amplas, que lhes foram distribuídas. Muitos dos colonos, todavia, não se conformaram com o engodo e, pouco depois de chegados, invadiram extensas áreas devolutas, situadas ao longo do Rio Macaé, de clima e chãos mais propícios, ampliando em muito, a área do município. Ali conseguiram cultivar a rubiácea e, durante muitos anos, alcançaram subsistir dignamente, mesmo tendo ficado inteiramente isolados e desamparados por parte das autoridades, até meados do século XX. Para conseguir apoderar-se das citadas áreas, os colonos suíços tiveram que se haver com aguerridos bandos de quilombolas, oriundos da Baixada, que habitavam e dominavam a região.
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O povo friburguense é, sobretudo, afável e acolhedor. Essa é sua principal característica. Procura receber como irmãos aqueles que o buscam, e consideram que ser friburguense é, menos uma questão de naturalidade e, sim, mais uma questão de amor. Para ser friburguense, diz ele, basta que se ame sua terra, sua gente, seus ares, seu clima, suas montanhas e as belezas de seu rincão. Para ser friburguense, basta querer ser friburguense! Por isso, Nova Friburgo está sempre de braços abertos a todos aqueles que a quiserem abraçar fraternalmente.
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Foi dito, no princípio destes escritos, que Nova Friburgo é algo de ímpar no contexto brasileiro. Nós o dissemos com acerto e com orgulho. Ela exibe várias singularidades, vejamos algumas delas:
-- Nova Friburgo foi a única cidade do Brasil a ser fundada por um rei, D. João VI, o Clemente, que exigiu textualmente que a primeira paróquia da mesma fosse dedicada ao santo de seu nome, São João Batista.
-- Curiosamente, a paróquia de Nova Friburgo foi instalada na Suíça, no porto lacustre de Estavayer-le-Lac, onde foi celebrado seu primeiro casamento.
-- Constitui-se na primeira colonização não portuguesa acontecida no Brasil, em caráter permanente. Estando registrados os nomes de todos os seus fundadores, num preito de verdadeira admiração e perene gratidão.
-- Foi a primeira colonização alemã havida no Brasil, anterior, inclusive, ás do Sul do país. Os nomes de todos os colonos alemães são, também, conhecidos e guardados com carinho e orgulho.
-- Em Friburgo foi instalada a primeira Comunidade Protestante da América Latina, com a chegada dos alemães, em 1824. Antes dela, em 1819, nos brejos de Mijl, na Holanda, onde estiveram acampados por muitos dias, os suíços protestantes chegaram a se reunir e formar um "Colégio de Ajuda" para proteção mútua e pedir ao rei, ao chegarem, liberdade religiosa.
-- Nova Friburgo foi a primeira célula urbana do Brasil a ser projetada. Foi construída e passou a aguardar a chegada de seus futuros habitantes.
-- Em Nova Friburgo, durante os primeiros anos de sua existência, eram falados pelo povo, simultaneamente, três idiomas: o português, o francês e o alemão. Inclusive os avisos e as resoluções oficiais eram redigidos nas três línguas.
-- Logo depois de habitada, um sexto dos habitantes de Nova Friburgo era composto por órfãos, fato decorrente das muitas mortes havidas durante a terrível viagem.
-- O primeiro colégio misto do Brasil (para meninas e meninos) foi instalado em Nova Friburgo, logo depois de chegados os colonos suíços.
-- Subsistem em Nova Friburgo duas bandas-de-música mais que centenárias. Uma delas, a Euterpe, ostenta, desde sua fundação, ocorrida em 1863, a bandeira de cor verde, representativa da Monarquia. A outra, a Campesina, surgida em 1870, desfralda o lábaro rubro, para destacar seus ideais republicanos e antiescravocratas.
-- Em Nova Friburgo foi hasteada pela primeira vez no Brasil, em sua panóplia oficial de bandeiras, o estandarte da Consciência Negra, num preito de reconhecimento por essa raça que tanto vem contribuindo para a grandeza do Brasil.
-- Nova Friburgo contém a maior fatia remanescente da Mata Atlântica do Estado do Rio de Janeiro e é, deste, seu maior produtor de flores e hortigranjeiros.

Raphael L. de S. Jaccoud
Descendente de colonos suíços emigrados a bordo do veleiro "Urânia", em 1819

 


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